• Clara Ramos

A história da calça jeans no brasil e no mundo, e os impactos causados pela produção nos dias atuais

A calça jeans é uma peça de vestuário que quase todo brasileiro tem em seu guarda roupa, independentemente do estilo ou tribo à qual aquela pessoa faz parte. Porém o que poucos sabem é que essa peça de roupa teve uma história longa antes de chegar ao consumo popular, e inclusive teve um papel importante em lutas no universo da moda e contra cultura. Menos ainda sabem sobre os impactos que a produção dessa peça pode causar no meio ambiente, então vamos aos fatos:


O início de tudo


Anúncio Levi's (1890)

De acordo com o documentário "A invenção da calça jeans" do Doc Mundi, precisamos voltar para meados de 1800 para começar a contar essa história. Foi quando um empresário chamado Levi Strauss teve uma grande ideia, ele pegou o tecido de cobertura para carroças que não conseguiu vender e fez calças mais resistentes para os trabalhadores do garimpo. Essas calças logo se tornaram um item almejado por esses garimpeiros, pois elas duravam mais e não estragavam com facilidade. Assim nascia o jeanswear, com a finalidade de trazer mais resistência para o dia-a-dia desses trabalhadores.


Em 1860 foram adicionados os botões de metal e em 1873 Levi, juntamente com seu parceiro Jacob David - quem realmente teve a ideia - patentearam o rebites de metal que davam mais segurança e durabilidade para as peças, principalmente aos bolsos que era onde eles carregavam alguns materiais pesados de trabalho.


Etiqueta Levi's

A partir daí muitas outras marcas começaram a fazer calças parecidas e em uma tentativa de se diferenciar no mercado Levi adicionou, em 1886, uma etiqueta de couro à suas calças com o nome da marca e o lote de fabricação. Pronto! Isso bastou para que a marca, conhecida até hoje, se estabelecesse na frente dos concorrentes na luta pelos consumidores.


Porém apenas em 1890 as calças ganharam a cor azul pela qual é famosa até hoje e o material passou a ser o brim, foi aí que ganhou o nome JEANS. Essa peça foi queridinha dos trabalhadores por muito tempo até se tornarem um marco no guarda roupa dos cowboys nos estados unidos na década de 30, principalmente com os filmes de faroeste. A peça então começou a ser vista como uma peça de badboys e foras da lei. Durante a grande depressão o jeans também foi usado pelos trabalhadores, agora no formato de macacões, e na década de 40 o brim foi enviado para os soldados estadunidenses, por causa de sua durabilidade e resistência, para serem usados na guerra. Com a vitória dos aliados o jeans se disseminou na Europa como símbolo da virilidade e liberdade norte americana.

Rosie, a rebitadeira (1942)

Nessa época as mulheres começavam a ingressar no mercado de trabalho industrial e começavam as lutas pelos direitos das mulheres, as calças tiveram um papel importante quando falamos sobre a simbologia do feminismo. A famosa "Rosie a rebitadeira" ícone do movimento feminista aparecia em ilustrações motivacionais com peças de brim e a frase "we can do it!", e é vista até hoje como símbolo de força e empoderamento feminino.


Na década de 50 a grande artista Marilyn Monroe usou calças jeans alegando que elas poderiam ser usadas em quaisquer ocasião, como por exemplo para se exercitar, como mostrava no artigo publicado pela revista LIFE em 1952. Nessa época as calças estavam ficando cada vez mais famosas, aparecendo em diversos filmes e sendo usadas por muitos artistas, como James Dean e Elvis Presley, na intenção de um visual mais despojado para o cotidiano

Marilyn Monroe para LIFE (1952)

Festival Woodstock (1969)

Em 60 movimentos de contracultura começaram a usar da calça jeans como um símbolo da transgressão e da luta daqueles que não queriam ser iguais seus pais. Nessa época os jovens começaram a usar a calça jeans e a camiseta branca (que era considera uma underwear masculina até então) para mostrar sua rebeldia e a sua vontade de fazer diferente. E em 69 no festival de Woodstock os hippies, em sua maioria, se encontravam com peças jeans, calças, shorts, camisas, coletes e tudo mais que podemos pensar, um símbolo de contestação e rebeldia.


Anúncio Calvin Klein (1979)

O primeiro estilista a usar do jeans em um desfile de passarela foi Calvin Klein, na década de 70, ele abriu caminho para outras marcas usarem do jeans como roupa democrática. A partir daí a peça começa a ter diferentes personalizações, lavagens e modelos, e começa a invadir cada vez mais os armários de todo o mundo. Nos anos 90 foram adicionados ao material o poliéster e o elastano, o que garantia à peça um caimento melhor e maior conforto para quem gostava da peça mais justa.




O jeans no Brasil


No Brasil, o jeans começou sua trajetória em 1948 quando a marca Roupas AB lnaçou a primeira calça de brim azul, porém a peça não teve uma aderência boa ao mercado, o tecido era grosso demais e pouco se ouvia sobre o murmurinho que a peça causou nos Estados Unidos e Europa.


Anúncio Far West Alpargatas (1972)

Em 1956 com a posse de Juscelino Kubitschek e a promessa de mudanças e avanços, o jeans começou a ter espaço no país. Nessa época a Alpargatas lançam a "calça que resiste a tudo" (como diziam os anúncios), porém quem tinha dinheiro trazia de fora ou comprava contrabandeada as famosas calças Lee, as calças que desbotavam, aí começou a febre entre os jovens brasileiros.


Calças Lee era como a calça jeans era chamada por aqui, a marca virou sinônimo de qualidade e status, ela representava aquele "american way of life" que os brasileiros tanto buscavam. Mas em 1972 foram lançadas a US Top, a verdadeira calça índigo brasileira que desbotava igual as calças Lee, elas eram adaptadas para o gosto dos brasileiros, que era justa na frente para os homens e justas nas costas para as mulheres, e em 1974 a Levi's começa a fazer da mesma maneira.


A calça jeans nos anos 90s e 2000

Anúncio Calvin Klein (1992)

Nos anos 90 muitas marcas famosas como Versace, Jean Paul Gautier e Ralph Lauren começam a usar do jeans em suas peças e muitas grifes de jeans surgem, como Diesel e Ellus. As calças que até então tinham um corte mais reto, começaram a sofrer mudanças para parecerem mais sexys e menos comportadas, foi aí que as campanhas de jeans começaram a ser cada vez mais erotizadas e apelativas. Aos 18 anos Kate Moss estrelou uma campanha polêmica da marca Calvin Klein ao lado de outro modelo.


A cintura alta foi aos poucos substituída pela cintura cada vez mais baixa, e o skinny começou a ser o novo queridinho das celebridades e fashionistas. Influenciadoras como Paris Hilton e Britney Spears ditavam a moda do momento, elas tinham seus looks cotidianos registrados por fotógrafos e paparazzis, essas fotos viralizavam e faziam com que jovens do mundo inteiro almejassem esses look com roupas curtas, justas e calças com cós superbaixos.


Britney e Paris com calças cintura baixa (anos 2000)

Os impactos do jeans no meio ambiente


Como podemos notar, a calça jeans se tornou tão conhecida principalmente pela sua resistência, dito isso precisamos frisar que até hoje a melhor qualidade do jeans é exatamente essa durabilidade, e ela precisa durar!


Vamos entender isso em números:


No brasil são vendidas em média 100 milhões peças em jeans durante um ano, no ano de 2013 registramos um recorde de quase 370 milhões de peças jeans produzidas. O brasileiro é fã de peças jeans, por aqui usamos para várias ocasiões, para trabalhar ou para sair, em encontros formais ou roles descontraídos, somos capazes de usar a calça jeans como uma peça super versátil no armário. O brasileiro compra em torno de 9 jeans por ano, 1 a mais do que a média global, segundo uma pesquisa de 2016 da LYCRA, imaginamos que quando consumimos exageradamente, nosso descarte também é exagerado.


As indústrias de roupas e calçados juntas correspondem à quase 8% das emissões de gases de efeito estufa, e quase 20% de toda a poluição da água que vem das indústrias vem do tratamento e tingimento de produtos e peças têxteis.


Avaliações que levam em consideração toda a cadeia produtiva da peça (como fabricação, estoque, transporte, etc) estimam que uma calça jeans pode gastar algo em torno de 5 mil litros de água. Essa média foi estimada através indicadores de pegada hídrica, entenda abaixo como foi feito o cálculo:

Ou seja, estender a vida útil de uma peça que gastou tanto para ser feita é necessário, assim conseguimos reduzir os impactos causados por ela em todas as suas fases. Quando compramos uma calça jeans que usamos pouco e logo descartamos, é como se ignorássemos toda a cadeia de insumos que ela precisou utilizar e desgastar, essa prática não é nada responsável.


Jeans sustentável?


Para que o jeans seja realmente sustentável ele precisa ser das duas uma:


  • Feito com algodão orgânico e certificado, de preferência com tingimento natural (com corantes naturais tipo alfafa, aveia e trigo)

  • Feito a partir da reutilização de retalhos ou peças de jeans que já existem no mercado


Quanto mais a empresa se responsabilizar pelos impactos que sua produção causa, ou com o que faz com os restos de tecido que sobram, ou se as condições de trabalho de seus colaboradores são adequadas às funções que eles desempenham dentro da empresa, mais essa empresa atua com responsabilidade para com o meio ambiente.


Na hora de consumir devemos ficar atentos à todos esses fatores, quanto mais "pontos" essa empresa recebe pela atuação coerente mais ela merece que você consume dela! Essa é a nossa parte nesse movimento todo, não temos como controlar o que a empresa faz nem como ela faz, porém podemos controlar como consumimos e de quem, isso já faz uma diferença boa no mercado da procura e demanda. Não podemos menosprezar nenhum passo, são todos muito bem vindos e importantes 😉


Que tal começar agora a consumir o seu jeans de uma maneira mais consciente e responsável? Conta pra gente o que você faz por essa luta?


Um beijo,

Clara Ramos